Embora difícil de entender, é bem
fácil explicar a derrota do Atlético no sábado contra o fraquíssimo time do
Cruzeiro. Fomos pegos pelo mesmo erro que tanto se repete do outro lado da
Lagoa: a arrogância. O Atlético perdeu porque entrou de salto alto, com a
impressão de que ganharia o jogo quando e como quisesse. Depois do primeiro gol
a impressão virou certeza absoluta. O Galo jogou como se estivesse jogando
contra o Mamoré.
E perdeu pontos preciosos: em
casa para um time muito fraco que, se não contratar e mudar muito, não vai
brigar por absolutamente nada no Brasileirão. E o Galo, modéstia às favas, com
time para brigar seriamente pelo título. O problema é que os jogadores
acreditaram cegamente nisso. Acreditaram tanto que sábado simplesmente não
houve jogo. O Cruzeiro, fraquíssimo, com três jogadores que realmente prestam:
Fábio, Alisson e Gabriel Xavier – este último ainda a se confirmar – entrou com
o claro propósito de não perder. O Galo, jogando contra o Mamoré.
O Atlético ficou 12 jogos sem
perder para o Cruzeiro e em todos eles o adversário jogou melhor do que jogou
sábado. O Atlético, nem se fala. A partida foi ruim, péssima. Um festival de erros e levou quem errou
menos. Era jogo para empate, zero a zero daqueles de dar calo nos olhos. E, não
fosse o Patric, voltando a ser Patric, seria 1 x 1. O Cruzeiro entrou para não
jogar, ficar recuado como time pequeno e empatar. Também, com Willians,
Marquinhos e Willian não dava para tentar nada além disso mesmo. Prova disso é
que o melhor jogador do Atlético, o que se salvou, foi o Rafael Carioca. E o do
Cruzeiro? Quem se destacou? Quem jogou bem? Todos chegaram ao seu limite, muito
além de seu limite, na verdade. E mesmo assim o melhor jogador do time foi o
goleiro.
Mas o salto do Galo era tanto
que, no primeiro tempo, até o 1 x 1 o Luan tocou todas as bolas, simplesmente
todas, de calcanhar, como se fosse o Sócrates. E sabemos que o Luan só é o Luan
quando ele é doido, intenso e simples. Quando ele acha que é o Maradona, com o
perdão da palavra, fode tudo. O Cruzeiro deu um gol para o Atlético. Gol achado. E
o salto só fez aumentar. Clássico, 1 x 0 e os caras dando toquinho no meio de
campo. Em uma dessas gracinhas entre Patric, Giovanni Augusto e Luan, o
Cruzeiro chegou pela única vez em uma jogada tramada e o Victor fez uma grande
defesa. Aliás, Giovanni Augusto joga muita bola, mas não é jogador para
clássico. Falta raça e vibração, é tipo um Everton Ribeiro: jogador que joga o
clássico do mesmo jeito que joga qualquer outro jogo...
Enfim, com a vantagem no
marcador, o Atlético poderia ter matado o jogo. Mas a soberba fez o Carlos, em
vez de finalizar, tentar um toquezinho ridículo na cara do Fábio e chutar para
fora. Depois ele tropeçou nas próprias pernas em uma disputa com o Bruno
Rodrigo. O Dátolo, depois, em vez de cabecear uma bola para o meio da área,
praticamente recuou pro Fábio, em um dos poucos cruzamentos acertados pelo Galo. Mais uma vez os cruzamentos. Todas as bolas que iam para dentro da área deles era Deus nos acuda,
mas os jogadores do Atlético, quase que invariavelmente, cruzam errado.
E no fim do primeiro tempo, em
uma jogada morta, mais do que morta, gol contra do Jemerson e o Atlético deu o
primeiro gol para eles. Começo de segundo tempo e o Galo continuava certo de
que venceria a partida tranquilamente quando quisesse. Era como se para eles a
derrota, mesmo o empate, fosse um resultado impossível. E, bem na minha frente,
o Patric deu uma de Patric. Sozinho com a bola na defesa, na lateral direita,
ele tenta o drible. Um drible que só ele, em seu mundo paralelo, acreditou que poderia dar certo. Primeiro porque ele driblou para o meio da área. Segundo, jogando
a bola para seu pé ruim. Terceiro porque tentou um drible de uns 5 km de distância. Ali,
amigo, se vai driblar, dribla para ponta, para o lado do seu pé bom. Se der errado, o cara
tá na lateral do campo e você inteiro na jogada, nem que para fazer a falta.
Para o meio, se você perde, o atacante fica na cara do gol e você entre fazer o
pênalti e rezar para o cara errar o gol.
A reação do Patric e do Leo Silva
após o lance deixaram ainda mais nítidos para mim que eles continuavam certos
de que o 2 x 2 era uma questão meramente de relógio. O time perdia, mas não
acelerava os lances, tocava pacientemente a bola, com uma frieza irritante. E o
adversário todo atrás do meio de campo, tentando heroicamente, mesmo jogando
mal, manter uma vitória sobre um time infinitamente superior. Mesmo assim, sem
nenhum primor de raça ou de técnica. Contava muito mais com a soberba e incompetência atleticanas.
Então, o Giovanni Augusto entrega
o terceiro gol. Naquele momento, finalmente, os jogadores do Galo cogitaram
como real a hipótese de não ganhar o jogo. Pior. Cogitaram ideia de perdê-lo.
Mas já era tarde e aí foi bumba meu boi e desespero.
Sábado o Cruzeiro não mereceu
ganhar o jogo. Entretanto, o Galo certamente mereceu perder. Mereceu muito. O
time, por soberba pura, não jogou. Não entrou em campo. Sábado foi dia de Maria
porque o Galo deixou que fosse, porque o Atlético não se comportou como
Atlético, porque encarou o fato de ser melhor da pior maneira possível: com
autossuficiência e soberba. Indiscutivelmente, não foi o Cruzeiro que ganhou o
clássico, o Atlético que o perdeu.
Que sirva de lição, que sirva
para os jogadores entenderem que o Atlético só é o melhor time quando é um time
operário. E que mesmo times horríveis, fazendo partidas pífias, podem ganhar se
entregarmos as vitórias para eles. E que quarta, contra o Santos, outro time bem
mais fraco que o Galo, entremos sabendo que só ser o melhor não vale nada e que
no futebol nem sempre o melhor vence.